Introdução
“(…) jamais cumprirá seu destino, nem você, nem nenhum de nós, a menos que você se livre da ilusão de ter o controle.”
Assim define o personagem Oogway da animação infantil “Kung Fu Panda” (DREAMWORKS, 2008): ter o controle é uma ilusão.
A revelação simples reflete uma verdade que muitas vezes não é compreendida por grande parte dos gestores. Em sua definição, controle é o ato, efeito ou poder de controlar, ter o domínio(1). No entanto não podemos decidir sobre incertezas. Não podemos decidir quando uma ação da bolsa de valores vai subir. Não podemos decidir quando um projeto será bem sucedido. Não podemos nem mesmo decidir quando o leite vai ferver. Portanto, controle, no contexto de investimento e na definição correta da palavra, é uma falácia.
Todavia controle ganhou um significado informal. Se não podemos decidir sobre as incertezas, talvez possamos decidir sob elas. Assim, controlar seria o processo de monitorar indicadores que nos permitam tomar decisões e, claro, tomar as decisões. Se não podemos decidir quando uma ação da bolsa de valores sobe, podemos decidir quando aplicar ou resgatar o capital em acordo aos indicadores disponíveis. Através de avaliações no planejamento de um projeto, podemos identificar desvios e aplicar ações corretivas e preventivas para mantê-lo no caminho do sucesso. De maneira análoga e com experiência, podemos, de certa forma, prever quando o leite vai ferver.
Da perspectiva de investidor, controle assume uma conotação reativa. Entender este fato proporciona a necessidade de gerenciar os riscos que permeiam os investimentos. A ignorância deste fato reflete a repudia dos investidores em assumir riscos.
O objetivo deste trabalho é analisar as questões relacionadas à aversão dos investidores ao risco e dissertar sobre as seguintes afirmações propostas pela FGV (FGV ONLINE):
- Por ganância, os investidores querem ganhar mais quando arriscam mais.
- O risco é fictício, já que os investimentos com risco têm um retorno maior.
- Independente do risco, o investidor deve ganhar sempre o mesmo retorno.
(1) Aurélio, verbete: controle.
Motivos que levam os investidores a terem aversão ao risco
Risco é o perigo ou a possibilidade de perigo, situação em que há probabilidades mais ou menos previsíveis de perda ou ganho(2). Todavia o risco não representa um fato em si, isto é, não é uma certeza. Para muitos investidores aversão advém da possibilidade de perda de patrimônio, seja do valor aplicado, seja de um resultado aquém do esperado em um prazo de referência.
Talvez seja possível dizer que a aversão ao risco seja ocasionada por medo ou temor. Medo é uma inquietação ante a noção de um perigo real ou imaginário, de uma ameaça(3). Há também o chamado “medo condicionado”. Medo condicionado é o processo pelo qual uma coisa não apresenta ameaça alguma se torna temida por estar associado na mente de alguém a algo assustador (Daniel, p. 221). Para um investidor, não há nada mais assustador que perder seu patrimônio ou vê-lo se desvalorizar ao longo do tempo, sem a possibilidade de recuperação.
No mercado financeiro, são comumente consideradas três categorias de investidores baseadas no grau de aversão ao risco (FINANCENTER):
- Perfil Conservador
“É avesso ao risco. Sente-se desconfortável com as oscilações de preço, não suporta ver seu patrimônio diminuir. Abre mão da rentabilidade em troca da tranqüilidade. Suas informações são mais emocionais que racionais. Em geral tem pouca informação sobre o mercado.”
- Perfil Moderado
“Tolera um certo volume de risco. Aceita flutuação de preços em troca de ganho compensador. Não se expõe a grandes riscos. Tem razoável conhecimento do mercado, usando mais a razão nas decisões.”
- Perfil Arrojado
“Esse é o investidor típico de renda variável, pois aceita grande quantidade de risco, inclusive perda de capital – perder patrimônio. É movido pelas perspectivas futuras e expectativas de retorno acima da média. Tem grande conhecimento do mercado e acesso a informações, além de consultores. Acompanha ativamente seus investimentos, é ágil e racional na sua administração. Em geral é jovem.”
Basicamente o investidor sempre irá se enquadrar em uma dessas categorias. O investidor pode variar de um perfil conservador para moderado ou de moderado para arrojado à medida que ganha conhecimento sobre os investimentos e o mercado submetido. De outra forma, pode variar de arrojado para moderado ou de moderado para conservador à medida que adquiri riquezas e quer apenas fazer manutenção do patrimônio conquistado, ou após uma série de experiências ruins.
É importante mencionar que risco refere-se tanto a uma ameaça quanto a uma oportunidade. Em muitos textos, quando se menciona o grau de aversão ao risco do investidor, está sendo expresso o grau de aversão a uma ameaça ao seu patrimônio. Existem inúmeras incertezas que permeiam não somente o mercado financeiro, mas qualquer investimento de uma maneira geral. Porém, também é importante perceber que os riscos por trás destas incertezas podem refletir não apenas em uma ameaça, mas uma oportunidade, pois para qualquer investimento vale uma regra simples de negociação: comprar barato e vender caro. A seguir alguns riscos comuns que originam a aversão a alguns investidores (FINANCENTER):
- Risco de Mercado
Decorre do movimento nos preços ou nas taxas que influenciam na posição do ativo.
- Risco de Liquidez
Decorre da dificuldade com que se pode converter um ativo em dinheiro.
- Risco de Crédito
Decorre da obrigação de resgate ou liquidação que não seja honrada pela devida contraparte (a empresa emitente, por exemplo, banco).
- Risco Operacional
Decorre da falta de consistência e adequação dos sistemas, processamento de operações, bem como de falhas nos controles internos, fraudes ou quaisquer eventos deste tipo.
- Risco Legal
Decorre do potencial questionamento jurídico na execução dos contratos. Esta categoria de risco deve ser mensurada para investimentos que envolvam contratos específicos.
Antes de analisar porque algo pode dar certo, devemos analisar porque pode dar errado (PFEFFER). Então, risco não deve ser ignorado, tampouco evitado, e sim, risco deve ser administrado ou melhor, gerenciado. Para tal, é conhecido um processo de gestão de riscos na área de gerenciamento de projetos (PMBOK, 2008, p. 273):
- Planejar o gerenciamento de riscos – O processo de definição de como conduzir as atividades de gerenciamento de riscos de um projeto.
- Identificar os riscos – O processo de determinação dos riscos que podem afetar o projeto e de documentação de suas características.
- Realizar a análise qualitativa dos riscos – O processo de priorização dos riscos para a análise ou ação adicional através da avaliação e combinação da sua probabilidade de ocorrência e impacto.
- Realizar a análise quantitativa dos riscos – O processo de analisar numericamente o efeito dos riscos identificados, nos objetivos gerais do projeto.
- Planejar as respostas aos riscos – O processo de desenvolvimento de opções e ações para aumentar as oportunidades e reduzir as ameaças aos objetivos do projeto.
- Monitorar e controlar os riscos – O processo de implementação de planos de respostas aos riscos, acompanhamento dos riscos identificados, monitoramento dos riscos residuais, identificação de novos riscos e avaliação da eficácia dos processos de tratamento dos riscos durante todos o projeto.
Apesar de este ser um processo utilizado em gestão de projetos, não está limitado a esta área de conhecimento ou então, para o caso de investimento, este ser reconhecido como um projeto. Investimento pode ter todas as características de um projeto, pois projeto é um esforço temporário empreendido para criar um produto, serviço ou resultado exclusivo (PMBOK, 2008, p. 5). Todo investimento tem um prazo pelo qual o investidor espera um resultado específico, ainda que este prazo seja longo. O resultado é exclusivo, pois a ação de investir seja um processo repetitivo, são as incertezas relacionadas ao momento que torna um projeto único.
A gestão de risco envolve um estudo sistemático das incertezas que enfrenta uma organização com o propósito de identificar os resultados indesejáveis e passos gerenciais que reduzem a possibilidade de ocorrência (SAVAGE, p. 54).
Existem muitas ferramentas que auxiliam a gestão de riscos e dessa forma a tomada de decisão. Duas ferramentas bem simples, mas muito eficazes é a análise do VME (Valor Monetário Esperado – em Inglês EMV – “Expected Monetary Value”) e a Árvore de Decisão.
Para a compreensão das duas ferramentas, vamos resolver um exercício proposto (SAVAGE, p. 185):
“Suponha que você tenha que viajar a Londres e tenha esquecido seu guarda-chuva. A probabilidade que chova é de 40%. Se você for apanhado pela chuva, você terá $75 de prejuízo por danificar seu terno. O custo de um guarda-chuva é 25$ (…).”
Qual seria o melhor investimento, comprar o guarda-chuva ou arriscar não comprá-lo e torcer para que não chova?
Figura 1. Árvore de decisão do exercício proposto.
Conforme as possibilidades, comprando o guarda-chuva, o valor investido será sempre de 25$, chovendo ou não. Contudo, se não comprar o guarda-chuva, o valor da avaria será de 75$ somente no caso de chover. Calculando o VME das duas possibilidades de decisão (comprar ou não o guarda-chuva) temos:
a) Comprar
VME = (40% x -25$) + (60% x -25$)
VME = -25$
b) Não comprar
VME = (40% x -75$) + (60% x 0$)
VME = -30$
Analisando os resultados percebemos que é melhor comprar o guarda-chuva, pois o Valor Monetário Esperado demonstra que o valor desembolsado será maior arrumando o terno (30$) que comprando o guarda-chuva (25$).
Vamos analisar algumas colocações sugeridas pela FGV para a confecção deste artigo que refletem o pensamento de alguns investidores ou potenciais investidores (FGV ONLINE).
Por ganância, os investidores querem ganhar mais quando arriscam mais…
Muitas vezes, ganância torna-se um termo pejorativo, ou seja, expressa desaprovação ou significação desagradável. Ganância, na verdade, significa ambição de ganho (Aurélio). Retirando-se qualquer efeito pejorativo da frase “por ganância, os investidores querem ganhar mais quando arriscam mais”, podemos compreender como uma prática normal de negociação de mercado.
Ora, qual interesse em se investir em um projeto mais arriscado que possui a mesma ou menor possibilidade de ganho de outro projeto menos arriscado?
Percebe-se, portanto, para arrecadar recursos para seus projetos, as empresas necessitam criar argumentos que convençam os investidores a aplicar seus recursos. Sabendo-se que o fracasso é uma possibilidade para qualquer projeto, o risco de prejuízo é proporcional a qualidade e quantidade das incertezas que norteiam o projeto. Quando o risco é grande, ou a empresa torna o projeto atraente aos investidores, ou o projeto não se viabiliza por falta de recursos. Propor um retorno maior aos investidores é uma maneira de tornar o projeto mais atraente.
As empresas apresentam seus argumentos atrativos, os investidores capazes de assumir os riscos relacionados aceitam. Maiores possibilidades de ganhar é a justificativa para a viabilização do projeto. Se não fosse assim, muitos projetos seriam apenas sonhos ou devaneios, muitas empresas brasileiras seriam apenas “um conjunto de estabelecimentos”.
O risco é fictício, já que os investimentos com risco têm um retorno maior…
Risco é fictício? É uma forma de entender já que o risco é a ameaça ou a oportunidade de um acontecimento. No entanto a colocação “os investimentos com risco têm um retorno maior” não é uma verdade.
Como foi dito anteriormente, para arrecadar recursos externos a fim de viabilizar um projeto, uma empresa necessitar “atrair” os investidores de alguma forma, sendo o retorno (lucro) uma delas. No entanto, nem sempre a empresa dispõe da possibilidade de atrair investimentos com retorno financeiro. Outra maneira de atrair investidores a um investimento de alto risco, mas com baixo potencial de retorno poderia ser trazendo benefícios para uma comunidade carente, por exemplo.
Os investidores, neste caso, devem observar e comparar os riscos entre os investimentos. Aqueles que procuram maiores retornos devem analisar se o risco compensa. O cálculo de VME, como já foi explicado, pode auxiliar na decisão.
Independente do risco, o investidor deve ganhar sempre o mesmo retorno…
Dependendo de como se entende esta afirmação, isto é impossível. Como dito anteriormente, o fracasso é uma possibilidade de resultado, apesar de indesejável. Neste caso, é difícil acreditar que uma empresa garanta o mesmo retorno, mesmo após ter fracassado em sua empreitada.
Por outro lado, muitos economistas defendem a idéia que em longo prazo, uma seqüência de investimentos arriscados terá resultados próximos a outros menos arriscados, por causa da soma dos resultados de sucessos e fracassos. No contexto de investimentos em longo prazo, portanto, a afirmação pode estar correta.
(2) Aurélio, verbete: risco.
(3) Aurélio, verbete: medo.
Conclusão
Se a aversão for uma repulsa causada por uma ameaça real ou imaginária, valeria a citação de Franklin Roosevelt:
“A única coisa que devemos temer é o próprio medo.”
Se o medo é um sentimento causado pela dificuldade de lidar com incerteza, portanto é também um indicador que determina a falta de conhecimento sobre determinado assunto.
Assumindo as premissas que “risco não deve ser ignorado, mas sim, risco deve ser gerenciado”, e que “assim como há pessoas que possuem aversão ao risco, há pessoas que são seduzidas por ele”, ambos os tipos de pessoas deveriam seguir a mesma regra: decidir embasado em uma técnica de modelagem ou análise quantitativa, por exemplo, a análise de valor monetário esperado, e na capacidade de gerenciar os riscos atrelados.
À medida que tomamos conhecimento sobre um assunto, vamos tomando também o conhecimento sobre as incertezas que o cerca. O processo contínuo de descoberta das incertezas e do estudo sobre as mesmas proporciona o planejamento das ações mais adequadas a serem tomadas quando um risco é iminente.
É possível, portanto, que a aversão ao risco diminua à medida que o investidor tome conhecimento daquilo em que deseja direcionar seu capital, experimentando com sucesso ações planejadas ante as ameaças ou as oportunidades.
Referências bibliográficas
DREAMWORKS; Kung Fu Panda. Paramount. 2008. 92 Minutos. ASIN B00168OINK.
FERREIRA, AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA; Novo Dicionário Eletrônico Aurélio. Versão 5.11a. Edição eletrônica autorizada à POSITIVO INFORMÁTICA LTDA
FGV ONLINE; Finanças Empresariais: atividade 1 – http://moodle.fgv.br/
FINANCENTER; Riscos de Investimentos. << http://financenter.terra.com.br/Index.cfm/Fuseaction/Secao/Id_Secao/1501 >>, acessado em 25/01/2010.
GOLEMAN, Daniel; Inteligência Emocional: a teoria revolucionária que define o que é ser inteligente. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. 370 p.
PFEFFER, Jeffrey; SUTTON, Roberto I. A verdade dos fatos: gerenciamento baseado em evidências. Tradução: Alexandra Mussi Araújo. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. ISBN 85-352-1967-6.
PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. Um Guia do Conjunto de Conhecimentos em Gerenciamento de Projetos (PMBOK Guide). 4 ed. Newtown Square, PA: Project Management Institute Inc., 2008. ISBN 978-1-933-890-70-8.
